Alguns animais têm maior facilidade a adaptarem-se a poluição e aos problemas gerados pelo ambiente urbano que os cercam, outros não.
Além da poluição, introduzimos animais exóticos competindo e prejudicando espécies nativas.
Os ambientes aquáticos são muito modificados por nossas necessidades, as canalizações são formas de manter as cidades funcionando, gerando um caminho para que a água da chuva possa fluir ou para receber esgotos, embora muitas vezes os esgotos são despejados em canais impróprios de forma ilegal.
A cidade de Santos tem em seu território insular canais que fluem como veias e são usados pelos habitantes inclusive como referência para localização.
Os canais começaram a ser construídos no início do século XX, sendo o primeiro inaugurado em 1907, mas o sistema de drenagem foi concluído em 1968, com a inclusão dos canais 7 e o da Avenida Jovino de Melo, que não constavam no projeto original de Saturnino de Brito.
A construção dos canais foi um marco na cidade de Santos, tornando-a salubre, pois antes deles, a cidade era vista como um berço de doenças como a febre amarela, febre tifóide e malária. A cidade era tão mal vista, que apesar de ter o maior porto do país, na época os tripulantes recusavam-se a descer dos navios, e o porto carregada o estigma de porto maldito.
A cidade atualmente conta com 12 canais de grande porte expostos, onde peixes e aves são freqüentemente observados. Como os principais são dispostos paralelamente entre si, margeados por avenidas importantes acabaram sendo numerados de 1 a 7. Há outros dois canais perpendiculares, um na Avenida Moura Ribeiro, outro saindo do Orquidário, parque tradicional da cidade, um terceiro próximo a Santa Casa de Misericórdia, um dos mais antigos hospitais do país, e mais distante do outro lado da cidade, um que corta a Avenida Jovino de Melo indo em direção ao canal portuário da Zona Noroeste, e perpendicular a esse outro que dirige-se a São Vicente continuando o Sistema de drenagem na cidade vizinha.
Embora tenham sido projetados como receptores de água de chuva e para escoar a água do estuário pela cidade, além do lixo que é jogado com grande freqüência, o que prejudica a situação dos canais. Esgotos clandestinos também podem ser fonte de poluição, assim como produtos químicos e lixo das ruas que são arrastados pela água para os canais através do sistema de drenagem da cidade.
O Canal 1
Foi o primeiro a ser construído e o maior da cidade. Seu projeto inicia-se com a retificação do Rio dos Soldados, naquela época já muito poluído. Atualmente ele está dividido em duas partes expostas, e uma subterrânea. Ele liga a bacia do mercado, próximo a região portuária até a praia, cortando o território insular da cidade em duas partes. É um canal com margens bem arborizadas, tendo interligações exposta com outros canais. (Canal 2, Moura Ribeiro e Orquidário), e é também interligado subterraneamente ao Canal da Francisco Manuel e o Canal 3.
Embora seja um canal poluído possui muitos peixes, aves e plantas, principalmente na região intermediária entre a sua parte coberta e a praia.
Entre os peixes observados, há grande quantidade de Tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus), Guarus e lebistes (guppys) selvagens. (possivelmente Poecilia vivípara e P. reticulata).
Garças brancas grandes (Casmerodius albus) e pequenas (Egretta tula) e Biguás (Phalacrocorax brasilianus ), São aves frequentes.
Algumas plantas aquáticas emergem próximas as margens.
É comum ver ilhotas de terra características de assoreamento, além de grandes quantidades de lixo.
Como todos os canais; é altamente influenciado pelas chuvas e a dinâmica das marés. Seu nível oscila muito, fazendo diferença na presença das aves que ali se alimentam. Outras aves também podem ser vistas, por freqüentarem as árvores ao redor e ocasionalmente caçando nas águas, como bem-te-vis (Pitangus sulphuratus) e Viuvinhas (Fluvicola nengeta).

Foto1: Canal 1 visão geral

Foto 2: Planta emergindo próxima a margem do canal 1. provavelmente Callitriche sp.

Foto3: Planta emergindo próxima a margem do Canal 1. Provavelmente Lindernia sp.

Foto 4: Detalhe mais aproximado da provável Lindernia sp.

Foto 5: Detalhe da provável Callitriche sp. Detalhe do caramujo ao meio.

Foto 6: Biguá descansando em um cano. Canal 1 – Santos.

Foto7: A provável Lindernia crescendo nas bordas do Canal 1

Foto 8: :Ilha de Assoreamento no Canal 1
O Canal 2
Surge como uma derivação do Canal 1, prosseguindo em direção o mar, acompanhado pela Avenida Bernardino de Campos, uma das mais movimentadas da cidade. Muito semelhante ao canal 1, quanto aos animais e plantas observados, porém nesse há menor assoreamento, e o fundo de areia mais visível. Todos os peixes observados no canal 1, foram também observados no Canal 2.

Foto 9: Tilapias sobre a ponte entre Bernadino de Campos e Rua Goiás (Canal 2)

Foto10: Ludwigia sp. Vegetando a margem do Canal 2

Foto 11: Provável Eleocharis SP. Vegetando a margem do Canal 2

Foto 12: Canal 2 – Visão Geral.
As plantas identificadas na observação foram:
- Lindernia sp.
- Eleocharis sp.
- Callitriche sp.
O Canal 3
Esse Canal também surge a partir do Canal 1, e vai em direção ao Mar correndo por toda avenida Washington Luiz. Portanto também compartilha água e fauna com o canal 1 e 2. É também muito arborizado, porém, há presença de árvores de Janbolão, que atraem aves frugívoras durante o dia, como periquitos de asa azul (Brotogeris cyanoptera).

Foto13: Alternanthera philoxeroides e outras plantas a margem do canal 3

Foto14: Tilapia morta no canal 3

Foto15: Casal de tilapias nadando no canal 3

Foto16: Garça branca grande (Casmerodius albus) caçando no canal 3

Foto17: Visão geral do canal 3
As plantas observadas no canal 3 foram:
- Alternanthera philoxeroides (foto 13)
- Lindernia sp.
- Callitriche sp.
- Eleocharis sp.
O Canal 4
Servindo de ligação entre o estuário e a baía de Santos sofre maior influência da maré do que o canal 1 ao 3 e segue por toda a extensão da Avenida Siqueira Campos. O único peixe observado nesse canal foi o Guaru (Poecilia vivípara). Porém as condições permitem outros poecilídeos viverem no local. Nenhuma planta foi observada vegetando no dia da observação. É arborizado em boa parte de sua extensão, exceto na região mais próxima da praia.

Foto 18: Grupo de poecilia vivípara (Guarú), destaque para as manchas características da espécie.

Foto 19: Visão geral do canal 4

Foto 20: Visão do canal 4 um pouco antes de chegar a praia
O Canal 5
Também fortemente urbanizado, é um canal que liga o estuário da região portuária a praia.. Acompanha toda a avenida Almirante Cochrane, quase em linha reta. Assim como no canal 4, também não foram observadas plantas vegetando dentro do canal exceto musgos próximos a calçada, e também somente foram observados guarús (poecilia vivípara). É também um canal muito influenciado pela maré. Embora arborizado, poucas árvores são frutíferas.


Foto 21 e 22: Visão geral do canal 5
O Canal 6
Canal bem retilíneo que segue junto a Avenida Joaquim Montenegro da região portuária até a praia. Nele há um acúmulo de sedimento maior comparado aos outros, permitindo que algumas plantas enraízem nele, e cresçam principalmente próxima a borda.
Também é um canal mais raso, sendo comum ver garças e bem-te-vis pescando nele.

Foto 23: Visão geral do canal 6

Foto 24: Planta emergindo provavelmente Callitriche sp.

Foto 25: Aglomerado de algas e plantas submersas no Canal 6

Foto 26: Visão mais próxima do aglomerado

Foto 27: Provável Eleocharis geniculata emergindo no Canal 6

Foto 28: Planta não identificada emergindo no Canal 6

Foto 29: Detalhe da planta acima

Foto 30: Garça pescando no canal 6
O canal 7
É o canal mais influenciado pelas marés, sendo bem salino mesmo durante as marés baixas. É possível encontrar caramujos marinhos (Litorina flava) andando pelas bordas. Também é comum a presença de peixes estuarinos, em especial Baiacu-pinima (Sphoeroides sp.) e Parati (Mugil Liza). A condição permite o desenvolvimento de algas filamentosas que são atacadas brutalmente pelos cardumes de pequenas Paratis.
Não foram observadas plantas aquáticas nesse canal, provavelmente devido a salinidade.
Também foi observado aqui Guarús (Poecilia vivípara) e outro poecilídeo, provavelmente Jenynsia lineata.
Embora não tenham sido observados, nesse canal há relatos de:
- Robalos filhotes (Centropomus sp.)
- Bagre (Arius sp.)

Foto 31: Litorinas na margem do canal 7

Foto 32: Guarus nadando sobre aglomerado de algas filamentosas

Foto 33: Paratis atacando o aglomerado outro aglomerado de algas

Foto 34: Visão geral do canal 7
OS OUTROS CANAIS DE SANTOS
Além dos 7 Canais conhecidos por desaguarem na praia e usados como referência geográfica a cidade conta ainda com outros canais, sendo 3 deles afluentes do Canal 1. E os outros 2 ficam do outro lado da cidade (dividida pelos morros), formando uma bacia de canais isolada, onde há um principal que desce o morro da caneleira em direção ao Rio Casqueiro, e é interligado com outro que percorre a Avenida Eleonor Roosevelt, até chegar na divisa com a cidade de São Vicente, e segue por essa cidade.

Foto 35: Mapa da cidade identificando os canais, sendo os principais numerados de 1 a 7.
Os outros identificados como
A: Canal do Orquidário
B: Canal da Avenida Moura Ribeiro
D: Canal da Avenida Francisco Manuel
C: Canal da Avenida Jovino de Melo
E: Canal da Avenida Eleonor Roosevelt.
Canal do Orquidário.
Pequeno canal que nasce da queda d´água da gruta de Nossa senhora de Lourdes atravessando o orquidário, parque tradicional da cidade, correndo para o canal 1, após seguir pela avenida Barão de Penedo. Há muitos relatos de aparição de tigres d´agua e tartarugas de orelha vermelha, provavelmente fugitivos do orquidário. Os peixes aqui observados foram somente guarus, porém o canal é conhecido na cidade, principalmente próximo a gruta, por conter Espadinhas selvagens (Xiphophorus helleri), acredita-se que tenham fugido de um antigo criador que morava no morro de onde a água que alimenta o canal vem. Também é comum a presença de garças.

Foto 36: Visão geral do canal na área da Barão de penedo

Foto 37: Queda dágua que alimenta o canal
Canal da Avenida Moura Ribeiro
Também alimentado por água que escorre do morro, aqui foi observado somente Guarús e lebistes selvagens. É um canal com muitas plantas emergindo, embora seja uma planta comum, somente nesse canal foi observada Heteranthera reniformis.

Foto 38: Heteranthera reniformis e várias plantas ruderais não identificadas ao redor dela

Foto 39: Provável Callitriche sp e Lindernia sp vegetando a margem do canal da avenida Moura Ribeiro.

Foto 40: Visão geral do Canal
Canal da Avenida Francisco Manoel.
Infelizmente não foi possível fotografar esse canal, embora seja possível observar plantas em suas margens não foram identificadas, mas Tilápias do Nilo puderam ser observadas nele.
Os Canais da Jovino de Melo e da Avenida Eleonor Roosevelt não foram incluídos nesse artigo, deixando espaço para um próximo artigo englobando todos os canais interligados nesse sistema.
Entre os animais conhecidos por ocorrerem nos canais e não foram observados durante as visitas para a montagem desse artigo
- Caramujo trombeta asiático - Melanoides tuberculatus
- Caramujo planorbis – Biomphalaria sp.
- Savacu – Nycticorax sp.

Foto 41: Entrando no Canal 7 para escolher caramujos a serem fotografados.
Agradeço ao meu amigo Marcos Morato pelas fotos !! Todas são de sua autoria !!